Anamnese psicológica: perguntas por bloco, como conduzir a entrevista e cuidados éticos
Um roteiro de perguntas de anamnese psicológica organizado por bloco, como conduzir a entrevista inicial sem transformá-la em interrogatório e o que o CFP exige de registro e sigilo.
A anamnese psicológica é a entrevista em que o psicólogo reconstrói, junto com o paciente, a história da queixa e da vida dele para entender o que trouxe a pessoa até ali. Ela não é um questionário a ser preenchido: é um roteiro de perguntas que orienta a escuta e ajuda a formular hipóteses e um plano terapêutico.
Abaixo você encontra perguntas de anamnese psicológica organizadas por bloco, dicas para conduzir a entrevista psicológica sem perder o vínculo e os cuidados éticos com registro e sigilo.
O que é anamnese psicológica e para que serve
Na saúde em geral, a anamnese é a coleta da história clínica (veja o guia tudo sobre anamnese). Na psicologia, ela ganha outras camadas: como a pessoa percebe o próprio sofrimento, que significados dá aos acontecimentos, que padrões se repetem nas relações e quais recursos ela já tem.
Ela serve para:
- Entender a demanda real, que nem sempre coincide com a queixa inicial.
- Identificar riscos que pedem conduta imediata.
- Avaliar se o caso é para psicoterapia, avaliação, encaminhamento ou trabalho conjunto com psiquiatria.
- Definir objetivos e um contrato terapêutico claro.
- Criar uma linha de base para acompanhar a evolução.
Anamnese, entrevista psicológica e triagem psicológica
| Termo | O que é | Quando acontece |
|---|---|---|
| Triagem psicológica | Conversa curta para entender a demanda e direcionar (terapia, avaliação, encaminhamento) | Antes do início do acompanhamento, comum em clínicas-escola e serviços com fila |
| Entrevista psicológica | Termo amplo para qualquer entrevista clínica com objetivo definido | Ao longo de todo o processo |
| Anamnese psicológica | Entrevista focada na história de vida e da queixa | Primeiras sessões, retomada quando surgem fatos novos |
Perguntas de anamnese psicológica por bloco
Use as perguntas como mapa, não como script. Adapte a linguagem, siga o que o paciente traz e volte aos blocos que ficaram em aberto nas sessões seguintes.
1. Identificação e contexto
- Nome, idade, gênero, estado civil, escolaridade, ocupação.
- Com quem você mora hoje?
- Como chegou até aqui: indicação, encaminhamento médico, escola, empresa, busca própria?
2. Queixa e motivo da busca
- O que fez você procurar atendimento agora, e não antes ou depois?
- Como você descreveria o que está sentindo, com suas palavras?
- Desde quando isso acontece? Houve algum fato que marcou o início?
- O que melhora e o que piora?
- O que você espera que mude com a terapia?
3. História de atendimentos anteriores
- Já fez terapia antes? O que funcionou e o que não funcionou?
- Já recebeu algum diagnóstico psicológico ou psiquiátrico?
- Usa ou já usou medicação psiquiátrica? Quem prescreve? Como é a adesão?
4. História de vida e desenvolvimento
- Como foi sua infância? Quem cuidava de você?
- Quais acontecimentos você considera marcantes, positivos ou negativos?
- Como foi a vida escolar e a adolescência?
- Houve perdas, mudanças, separações ou situações de violência?
5. Família
- Como é (ou foi) a relação com pais, irmãos e outros familiares próximos?
- Há histórico de sofrimento psíquico, uso de álcool ou outras drogas na família?
- Se tem filhos ou parceiro(a): como são essas relações hoje?
6. Rotina, trabalho e relações
- Como é um dia comum seu, do acordar ao dormir?
- Como está o trabalho ou os estudos? Há pressão, conflitos, satisfação?
- Com quem você pode contar quando as coisas ficam difíceis?
- O que você faz para descansar ou se divertir?
7. Saúde física e hábitos
- Como está seu sono? E a alimentação?
- Pratica atividade física?
- Consome álcool, tabaco ou outras substâncias? Com que frequência?
- Tem alguma doença ou faz tratamento médico hoje?
8. Emoções e enfrentamento
- Como você costuma lidar com raiva, tristeza, frustração?
- O que você gostaria de entender melhor sobre si mesmo?
- Existe algo que você evita falar ou receia que apareça na terapia?
9. Avaliação de risco (obrigatória)
- Em algum momento você pensou que não valeria a pena viver?
- Já pensou em se machucar ou tirar a própria vida? Já tentou?
- Você está em alguma situação de violência ou risco hoje?
Perguntar diretamente sobre ideação suicida não aumenta o risco e é parte do cuidado. Se houver risco, registre, defina conduta e envolva a rede de apoio e outros profissionais conforme o caso.
Como conduzir a entrevista psicológica
- Explique o enquadre antes: duração, sigilo e seus limites, frequência e honorários.
- Prefira perguntas abertas e use as fechadas só para confirmar detalhes.
- Não esgote tudo na primeira sessão: uma anamnese apressada vira interrogatório e afasta o paciente.
- Observe o que não é dito: mudanças de assunto, pausas, contradições.
- Com crianças e adolescentes, faça a anamnese com os responsáveis e uma escuta separada do paciente, combinando com clareza o que será compartilhado.
- Registre logo após a sessão, de forma objetiva e sem julgamentos.
Cuidados éticos: CFP, sigilo e registro
O Código de Ética Profissional do Psicólogo coloca o sigilo como dever central: o que o paciente conta na anamnese só pode ser compartilhado nas situações previstas no código, e sempre na medida do necessário. O Conselho Federal de Psicologia também exige que o psicólogo mantenha registro documental dos atendimentos, guardado com acesso restrito.
Quando a anamnese embasa um documento, como relatório, laudo ou declaração, a elaboração segue a Resolução CFP 06/2019, que define tipos e estrutura dos documentos escritos do psicólogo. Se o documento citar diagnóstico, o código da CID-10 (por exemplo, F41, transtornos ansiosos, ou F32, episódios depressivos) só deve constar quando necessário e com cuidado com a exposição do paciente.
Os dados de saúde mental são dados sensíveis pela LGPD. Veja o que muda na rotina em LGPD na clínica na prática.
Anamnese em papel ou no prontuário eletrônico
Ficha impressa em pasta tem três problemas: pode ser lida por quem não deveria, se perde e não acompanha a evolução. No prontuário eletrônico, o acesso é controlado por usuário, a anamnese fica ligada às evoluções das sessões e o histórico está disponível quando o paciente volta meses depois. O artigo sobre prontuário eletrônico para psicólogos detalha o que considerar, e o guia de anamnese digital mostra como enviar parte das perguntas antes da primeira sessão.
Anamnese psicológica no dia a dia do consultório
Para quem atende muitos pacientes, ter um roteiro próprio salvo no sistema economiza tempo e evita esquecer blocos importantes, como a avaliação de risco. No OnDoctor, o psicólogo monta a própria anamnese personalizada, registra as evoluções no prontuário eletrônico com acesso restrito e organiza a agenda com confirmação por WhatsApp. Conheça os recursos do OnDoctor.
Perguntas frequentes
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