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Gestão · 7 min de leitura

Eventos adversos em saúde: o que são, classificação, exemplos e como notificar

Entenda a definição de evento adverso, a diferença para near miss, incidente sem dano e never event, como notificar no Notivisa e como analisar a causa raiz na sua clínica.

OD
Equipe OnDoctor
Sistema para clínicas e consultórios
Eventos adversos em saúde: o que são, classificação, exemplos e como notificar

Eventos adversos em saúde são incidentes que acontecem durante o cuidado e resultam em dano ao paciente, seja físico, psicológico ou social, sem relação com a evolução natural da doença. Queda durante a internação, erro de medicação que exigiu tratamento, infecção adquirida no procedimento e cirurgia no lado errado são exemplos clássicos.

Este artigo explica o que é evento adverso, a diferença entre evento adverso, circunstância de risco, incidente sem dano, near miss e never event, como funciona a notificação no Notivisa e no VigiMed, e como fazer uma análise de causa raiz que realmente evite a repetição do problema na clínica.

O que é evento adverso: definição

A definição usada no Brasil segue a Classificação Internacional de Segurança do Paciente da Organização Mundial da Saúde, adotada pelo Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP, Portaria MS 529/2013) e pela RDC ANVISA 36/2013:

Evento adverso é o incidente que resulta em dano ao paciente.

Dois pontos dessa definição costumam gerar confusão:

  • Evento adverso não é sinônimo de erro. Um paciente pode ter reação alérgica grave a um antibiótico prescrito corretamente, sem histórico conhecido. Houve dano, houve evento adverso, mas não houve erro. Por outro lado, muitos erros não causam dano e, portanto, não são eventos adversos.
  • Dano é qualquer prejuízo. Inclui lesão, sofrimento, incapacidade, prolongamento da internação ou do tratamento e morte. Não precisa ser físico.

Classificação: do risco ao never event

A classificação por tipo de incidente é a mais útil para a rotina, porque define o que notificar e com que urgência. A escala vai do que não chegou ao paciente até o que nunca deveria ter acontecido.

TermoO que éExemplo
Circunstância notificável (de risco)Situação com potencial de dano, sem incidente aindaDois frascos de medicamentos diferentes com rótulo quase idêntico na mesma gaveta
Near miss (quase-erro)Incidente interceptado antes de atingir o pacienteDose dez vezes maior preparada, mas barrada na dupla checagem
Incidente sem danoAtingiu o paciente, mas não causou danoPaciente recebeu dipirona em vez de paracetamol, sem reação
Evento adversoAtingiu o paciente e causou danoQueda na sala de espera com fratura
Never eventEvento adverso grave, evitável, que nunca deveria ocorrerCirurgia no paciente errado ou no lado errado; corpo estranho retido

Além do tipo, cada evento adverso é classificado pela gravidade do dano (nenhum, leve, moderado, grave, óbito) e pela evitabilidade. Eventos graves e óbitos recebem tratamento prioritário na investigação e têm prazo diferente de notificação.

Eventos adversos mais comuns em clínicas e consultórios

Hospitais concentram as estatísticas, mas eventos adversos acontecem em qualquer serviço. Os que mais aparecem em clínicas ambulatoriais, consultórios odontológicos e serviços diagnósticos:

  • Erro de medicação: paciente, medicamento, dose, via ou horário errados; prescrição com dose incorreta; alergia conhecida não checada.
  • Falha de identificação do paciente: exame, laudo ou procedimento atribuído ao paciente errado, principalmente quando há homônimos.
  • Quedas: na recepção, na maca, na cadeira odontológica, no banheiro.
  • Infecção relacionada à assistência: por falha em esterilização, higiene das mãos ou curativo.
  • Reações a procedimentos: lesão por anestesia local, queimadura por equipamento, extravasamento de contraste.
  • Falha de comunicação: resultado alterado de exame que ninguém comunicou ao paciente; encaminhamento urgente que se perdeu.
  • Falha de registro: prontuário incompleto ou ilegível que leva a decisão errada na consulta seguinte.

Na enfermagem, a lista se concentra em administração de medicamentos, lesão por pressão, flebite, extravasamento e identificação. Por isso, boa parte dos protocolos de segurança do paciente nasceu dentro da enfermagem e é operada por ela.

Evento adverso e segurança do paciente: o que a norma exige

O marco regulatório brasileiro é composto por dois documentos de 2013:

  • Portaria MS 529/2013 institui o Programa Nacional de Segurança do Paciente e define as metas e os protocolos básicos (identificação, higiene das mãos, cirurgia segura, medicação, quedas, lesão por pressão).
  • RDC ANVISA 36/2013 obriga os serviços de saúde abrangidos a constituir um Núcleo de Segurança do Paciente (NSP), elaborar o Plano de Segurança do Paciente, notificar os eventos adversos à ANVISA e investigá-los.

Para a clínica, isso se traduz em quatro obrigações práticas: ter alguém responsável pela segurança do paciente, ter protocolos escritos, registrar e notificar os eventos, e analisar o que aconteceu. As metas e os protocolos estão detalhados em metas internacionais de segurança do paciente e em como criar protocolos clínicos.

Como notificar: Notivisa e VigiMed

A notificação é feita em sistemas da ANVISA, pela internet, por um profissional cadastrado como notificador do serviço:

  • Notivisa: sistema para eventos adversos relacionados à assistência (quedas, erros de medicação, lesão por pressão, falhas de identificação, infecções, eventos cirúrgicos) e queixas técnicas de produtos.
  • VigiMed: sistema específico para notificação de eventos adversos a medicamentos e vacinas (farmacovigilância), que substituiu esse módulo do Notivisa.

Pela RDC 36/2013, os eventos devem ser notificados mensalmente, e os que evoluíram para óbito têm prazo curto, de 72 horas após a ocorrência. Confirme os prazos vigentes no site da ANVISA, porque os sistemas passam por atualizações.

O que uma boa notificação contém: data e local, descrição objetiva do que aconteceu (sem julgamento), tipo de incidente, gravidade do dano, fatores contribuintes identificados até o momento e ações imediatas tomadas. Nomes de profissionais não entram na descrição: o foco é o processo.

Análise de causa raiz: por que aconteceu

Notificar sem analisar não muda nada. A análise de causa raiz (ACR) busca os fatores de sistema que permitiram o evento, partindo do princípio de que pessoas competentes erram quando o processo facilita o erro.

Um roteiro enxuto, adequado a clínicas:

  1. Descreva a linha do tempo. O que aconteceu, em ordem, com horários. Ouça todos os envolvidos separadamente, em até 48 horas, enquanto a memória está fresca.
  2. Identifique os desvios. Em que pontos o que foi feito difere do protocolo ou do esperado.
  3. Pergunte "por quê?" cinco vezes para cada desvio, até chegar a um fator de sistema (treinamento, carga de trabalho, layout, rotulagem, software, comunicação), e não a "falta de atenção".
  4. Organize os fatores contribuintes por categoria (paciente, tarefa, indivíduo, equipe, ambiente, organização). O diagrama de Ishikawa ou o Protocolo de Londres ajudam nessa etapa.
  5. Defina ações corretivas fortes. Trocar o layout da gaveta de medicamentos ou criar uma trava no sistema vale mais do que "orientar a equipe". Cada ação precisa de responsável e prazo.
  6. Meça. Defina como vai saber se funcionou (por exemplo, zero quase-erros do mesmo tipo em 90 dias) e revise.

A análise só funciona em uma cultura justa: quem notifica não pode ser punido por notificar. Clínicas em que o evento vira culpa individual param de receber notificações e passam a descobrir os problemas pela via judicial.

Como estruturar a gestão de eventos adversos em uma clínica

  • Responsável nomeado: um profissional (enfermeiro, gestor ou médico) encarregado do NSP ou, em serviços menores, da função equivalente.
  • Canal simples de notificação interna: formulário digital ou de papel, com no máximo dez campos, acessível a toda a equipe, inclusive recepção.
  • Reunião mensal para revisar incidentes, status das ações e indicadores.
  • Protocolos escritos para identificação do paciente, medicação, quedas e higiene das mãos.
  • Prontuário completo: alergias em destaque, medicamentos em uso, conferência de identidade no atendimento. O prontuário é também a principal evidência em caso de apuração.
  • Comunicação com o paciente: informar o que aconteceu, o que foi feito e quais os próximos passos, com registro no prontuário.

Eventos adversos no dia a dia da clínica

Boa parte dos eventos adversos ambulatoriais passa por informação que não estava onde deveria estar: alergia anotada em um papel, exame alterado sem retorno, paciente homônimo na agenda. Um prontuário eletrônico com alertas de alergia, histórico de prescrições, identificação do paciente com foto e documento e registro de cada contato reduz esse tipo de falha e deixa a investigação rastreável quando algo acontece. Veja como o OnDoctor organiza o prontuário e o atendimento em recursos do OnDoctor.

Perguntas frequentes

Evento adverso é um incidente relacionado ao cuidado em saúde que causou dano ao paciente, e não à doença de base. Pode ser leve, moderado, grave ou levar a óbito, e pode ou não ter origem em um erro: é a existência de dano que o define.

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