Anamnese fonoaudiológica: roteiro por área e diferenças entre infantil e adulto
Roteiro de anamnese fonoaudiológica por área (linguagem, fala, voz, audição, motricidade orofacial e deglutição), com o que muda na ficha infantil e na do adulto.
A anamnese fonoaudiológica é a entrevista inicial em que o fonoaudiólogo levanta a queixa, o histórico de saúde e de desenvolvimento e o contexto de comunicação do paciente. É ela que define quais avaliações aplicar e qual será o foco da terapia.
Como a fonoaudiologia cobre áreas muito diferentes, a ficha muda conforme a queixa. Abaixo está um roteiro comum a todos os pacientes, os blocos específicos por área e as diferenças entre a anamnese fonoaudiológica infantil e a do adulto.
Para que serve a ficha de anamnese fonoaudiológica
A base é a mesma de qualquer anamnese, como explica o guia tudo sobre anamnese. Na fonoaudiologia, a ficha cumpre quatro funções:
- Direcionar a avaliação: uma queixa de rouquidão pede protocolo vocal; uma criança que não fala aos 2 anos pede avaliação de linguagem e audição.
- Levantar hipóteses e sinais de alerta que exigem encaminhamento (otorrino, neurologista, pediatra, psicólogo).
- Registrar a linha de base para medir a evolução da terapia.
- Documentar o atendimento, inclusive para convênios e relatórios para escola ou médico.
Bloco comum: o que toda anamnese fonoaudiológica deve ter
- Identificação: nome, idade, escolaridade ou profissão, informante (quando não for o paciente).
- Queixa principal nas palavras do paciente ou da família, quando começou e como evoluiu.
- Encaminhamento: quem indicou e com qual hipótese.
- Histórico de saúde: doenças, internações, cirurgias, medicamentos, alergias.
- Tratamentos anteriores: fono, psicologia, terapia ocupacional, por quanto tempo e com que resultado.
- Exames já feitos: audiometria, avaliação otorrinolaringológica, exames de imagem, laudos.
- Impacto da queixa na escola, no trabalho e na vida social.
Roteiro de anamnese fonoaudiológica por área
Linguagem
- Idade das primeiras palavras e das primeiras frases.
- Compreensão de ordens simples e complexas.
- Como a pessoa se comunica quando não consegue falar: gestos, apontar, choro, puxar o adulto.
- Interação social, contato visual, interesse por brincadeiras compartilhadas.
- Leitura e escrita, em crianças em idade escolar e adultos com queixa adquirida.
- No adulto: dificuldade de encontrar palavras, compreender ou ler após AVC ou doença neurológica.
Fala
- Sons trocados, omitidos ou distorcidos, e desde quando.
- Inteligibilidade: estranhos entendem o que a pessoa fala?
- Gagueira: início, situações em que piora, histórico familiar, reação da pessoa às disfluências.
- Velocidade e ritmo da fala.
Voz
- Rouquidão, cansaço vocal, falhas, perda de voz, dor ou ardor ao falar.
- Uso profissional da voz (professor, cantor, operador de telemarketing) e carga horária.
- Hábitos: hidratação, pigarro, gritar, falar em ambiente ruidoso.
- Tabagismo, álcool, refluxo, alergias respiratórias.
- Avaliação otorrinolaringológica e exame da laringe, quando já realizados.
Audição
- Percepção de perda auditiva, zumbido, tontura, sensação de ouvido tampado.
- Otites de repetição, especialmente na infância.
- Exposição a ruído no trabalho ou no lazer.
- Em bebês: resultado da triagem auditiva neonatal (teste da orelhinha) e fatores de risco.
- Uso de aparelho auditivo ou implante coclear.
Motricidade orofacial e deglutição
- Respiração oral, ronco, baba, postura de lábios e língua.
- Hábitos orais: chupeta, mamadeira, sucção de dedo, roer unhas.
- Mastigação: lado preferido, alimentos evitados, tempo para comer.
- Engasgos, tosse ao comer ou beber, perda de peso, pneumonias de repetição (sinais de disfagia, CID R13).
- Tratamento ortodôntico e cirurgias de face ou boca.
Anamnese fonoaudiológica infantil
Na criança, o informante é o responsável e o desenvolvimento ganha peso. Use como base a anamnese pediátrica e aprofunde:
- Gestação e parto: prematuridade, intercorrências, UTI neonatal, icterícia.
- Marcos do desenvolvimento: sustentar a cabeça, sentar, andar, balbuciar, primeiras palavras.
- Alimentação: amamentação, transição para sólidos, seletividade de texturas.
- Brincar e interação: com que brinca, se brinca junto, se responde ao nome.
- Escola: adaptação, queixas da professora, dificuldades de leitura e escrita.
- Telas: tempo de exposição e uso durante as refeições.
- Família: idiomas falados em casa, casos de atraso de fala, gagueira ou perda auditiva.
Atraso de linguagem associado a pouca interação social pede atenção à hipótese de transtorno do desenvolvimento e trabalho com a equipe. Quando há diagnóstico médico, o laudo pode trazer CID como F80 (transtornos específicos da fala e da linguagem) ou F84 (transtornos globais do desenvolvimento).
Anamnese fonoaudiológica adulto
No adulto, a queixa costuma ser adquirida e o foco muda:
- Início e causa provável: súbito (AVC, trauma, cirurgia) ou progressivo (doença neurológica, envelhecimento, abuso vocal).
- Condições neurológicas: AVC, Parkinson, esclerose múltipla, demências.
- Cirurgias de cabeça e pescoço, intubação prolongada, radioterapia.
- Demanda profissional: quanto a queixa atrapalha o trabalho.
- Segurança da alimentação em idosos e pacientes neurológicos.
- Rede de apoio: quem acompanha e pode ajudar nos exercícios em casa.
| Aspecto | Infantil | Adulto |
|---|---|---|
| Informante | Pais ou responsáveis | O próprio paciente, às vezes com acompanhante |
| Queixa típica | Atraso de fala e linguagem, trocas de sons, gagueira, respiração oral | Rouquidão, afasia, disfagia, perda auditiva |
| Foco do histórico | Gestação, parto e marcos do desenvolvimento | Início dos sintomas, doenças neurológicas, uso da voz |
| Fontes extras | Escola, pediatra, outros terapeutas | Médico assistente, exames, empregador |
Como conduzir a entrevista
A forma de perguntar influencia a qualidade da resposta, principalmente quando a família está ansiosa com o atraso da criança ou o adulto está abalado após um AVC.
- Envie parte da ficha antes da consulta. Identificação, histórico de saúde e exames podem ser preenchidos em casa; na sessão você confere e aprofunda.
- Comece com uma pergunta aberta: "O que trouxe vocês aqui?" e deixe a pessoa contar a história do jeito dela.
- Depois, siga o roteiro da área para não esquecer nada relevante.
- Use exemplos concretos: "Ele pede água falando, apontando ou levando você até a geladeira?" rende mais que "Ele se comunica bem?".
- Peça vídeos curtos da criança em casa ou da voz em situações de piora; eles mostram o que não aparece no consultório.
- Feche explicando os próximos passos: quais avaliações serão feitas, quantas sessões e quando haverá devolutiva.
Erros comuns e boas práticas
- Ficha única para tudo: mantenha o bloco comum e ative só a área da queixa, senão a ficha fica longa e superficial.
- Não registrar o informante: relato da mãe e relato da escola podem divergir; anote quem disse o quê.
- Esquecer a audição: em toda queixa de linguagem infantil, pergunte sobre audição e exames feitos.
- Não reavaliar: retome a anamnese a cada reavaliação para atualizar queixa e metas.
Do papel ao prontuário eletrônico
Ficha em papel dificulta comparar sessões, compartilhar com a equipe e montar relatórios. No OnDoctor, a clínica cria modelos próprios de anamnese fonoaudiológica (infantil, adulto, voz, deglutição) e registra a evolução no mesmo histórico, com agenda recorrente para as sessões. Saiba mais no artigo sobre prontuário eletrônico para fonoaudiologia.
Perguntas frequentes
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